UNIVERSIDADE
FEDERAL DO SUL E SUDESTE DO PARÁ
FACULDADE DE
EDUCAÇÃO DO CAMPO
DISCIPLINA:
FORMAÇÃO SÓCIO ECONÔMICA DA AMAZÔNIA
DOCENTE: IDELMA
SANTIAGO
DINÂMICA DA ECONOMIA MERCANTIL E AS
RELAÇÕES DE TRABALHO NA COLÔNIA PORTUGUESA
Erick Francisco Gaioso Machado –
LPEC 2013
A
história da América Latina onde o Brasil está inserido é baseada em dois tipos
de colonização: povoamento e exploração, que aconteceram simultaneamente em
territórios diferentes e distintos. Foram vários os fatores que influenciaram estas
conquistas dentre elas o bloqueio do comércio mediterrânico, a busca de novas
rotas para as Índias, a necessidade de novos mercados, escassez de metais
preciosos, expansão da fé católica, desenvolvimento da burguesia e a união
desta com a coroa entre outros.
Será
detido neste texto o tipo de colonização baseada na exploração que foi
realizada no que hoje é o Brasil, é preciso destacar que apesar da exploração,
esta também foi uma colônia de povoamento devido a necessidade de mão de obra,
a garantia da posse da terra e administração por meio de representantes da
coroa portuguesa. A colonização baseada na exploração possui como principal
objetivo, o enriquecimento de suas metrópoles por meio da agricultura, da
mineração e do extrativismo, como afirma Prado Junior (2004), este era o
sentido da colonização brasileira, “aquele “sentido” é o de uma colônia
destinada a fornecer ao comercio europeu alguns gêneros tropicais ou minerais
de grande importância”. Fazendo uso do
trabalho compulsório dos indígenas como mencionado por Prado Junior (2004),
“utilizaram a principio os autóctones. Lá onde a sua densidade é grande, e onde
estavam habituados a um trabalho estável e sedentário” e africanos.
Por
meio das expansões marítimas em busca de novos mercados e da moeda de troca da
época: ouro e prata, que surgiu o Mercantilismo, desenvolvido como destacado
por Novais (1990) como uma politica econômica que não visava o bem estar social,
mas que pelo contrário “visava o desenvolvimento nacional a todo preço”, ou
seja, era um mecanismo que tendia o enriquecimento e a consolidação das
metrópoles em estados nacionais, um sistema de dominação mercantil baseado em
um conjunto de normas e leis que regulamentavam as relações entre colônia e
metrópole em todos os aspectos, principalmente no campo econômico.
Segundo
Novais (1990), as economias coloniais, serviriam “para fomentar a acumulação, e
no nível politico a centralização do poder, para unificar o mercado colonial e
mobilizar recursos para o desenvolvimento”. Sendo assim, a colonização
americana foi a base para ascensão dos colonizadores europeus e do
desenvolvimento do capitalismo comercial. No entanto, é preciso destacar a existência
de outras atividades produtivas existentes dentro das colônias voltadas para a
subsistência dos grupos étnicos que eram subtraídos do enriquecimento por meio
da escravidão, como exemplifica Adelmir Fiabani (2005) as formas utilizadas
dentro dos quilombos para a garantia da sobrevivência, “os quilombolas
empregaram sua capacidade produtiva utilizando os recursos naturais disponíveis
como meios de sobrevivência”. Estes recursos extraídos, não serviam apenas para
a garantia de subsistência como também eram utilizados como moeda de troca para
obtenção de produtos que não eram possíveis de serem produzidos. “Comumente, os
quilombos estabeleciam relações com segmentos da sociedade escravista que, por
sua vez, forneciam informações e mercadorias, em troca, sobretudo de produtos,
serviços e seguranças” (FIABANI, 2005) Esta era uma das formas de garantir
posteriormente com a formação dos quilombos a sustentabilidade do grupo e o
fortalecimento das forças de combate à escravidão.
Dessa
forma, quando se tratava de produções em larga escala, as colônias eram vistas apenas
como áreas complementares para a economia metropolitana podendo relacionar-se
comercialmente apenas com suas respectivas metrópoles, sendo limitada a
produzir apenas, em larga escala e baixos custos, produtos que as metrópoles
não pudessem produzir, além disso, eram obrigados a consumir os produtos
manufaturados da metrópole devido não poderem ter fábricas. Novais (1990),
afirma que “o comercio se organizava, pois como monopólio régio”, no qual o rei
centrava todas as ações e relações das colônias exclusivamente com sua
respectiva metrópole. Com a centralização do poder, “foi possível disciplinar
as tensões e os conflitos sociais” (NOVAIS, 1990) decorrentes deste regime
colonial no qual a economia estava baseada.
Os
séculos XIV e XV se caracterizam pelo declínio do feudalismo, formação da
classe burguesa, expansão marítima e “descoberta” das terras americanas para
uma posterior concentração de riquezas através do metalismo e da lucratividade
advinda do regime colonial fundamentado no “exclusivo” comercial que era centralizado
no monopólio régio. Foi nesse contexto como afirma Novais (1990) “de exploração
ultramarina monopolista que se iniciou a produção colonial, e a comercialização
dos produtos gerados nas economias montadas no Novo Mundo”.
A agricultura foi o meio encontrado para a
exploração do litoral brasileiro, organizada em torno do monocultivo da
cana-de-açúcar, o produto mais valioso entre os séculos XVI e XVII. Segundo
Prado Junior (2004), “a monocultura acompanha necessariamente a grande
propriedade tropical”. Dessa forma, o Brasil e as terras americanas que ficavam
sob o domínio português eram integradas como fonte produtora dos produtos
comercializados pelos europeus. Além disso, resolvia-se o problema de
utilização econômica da colônia portuguesa. Passou-se do âmbito da circulação
de mercadorias para o da produção. “Com a grande propriedade monocultural
instala-se no Brasil, o trabalho escravo”. “Completam-se assim os três
elementos constitutivos da organização agraria do Brasil Colonial: a grande
propriedade, a monocultura e o trabalho escravo”. (PRADO JUNIOR, 2004)
A economia colonial era baseada
fundamentalmente neste tripé econômico que foram determinantes para o
alavancamento da economia europeia e a consolidação eurocêntrica, conquistada
através do exclusivo comercial. “Estes três elementos se conjugam num sistema
típico, “grande exploração rural”” (PRADO JUNIOR, 2004), o tripé da economia
colonial que garantiu à Europa uma posição central sócio e economicamente
diante da formação do mundo. “A Europa não somente tinha o controle do mercado
mundial, mas pôde impor seu domínio colonial sobre todas as regiões e
populações do planeta, incorporando-as ao “sistema-mundo” que assim se
constituía, e a seu padrão específico de poder”. (QUIJANO, 2005) Este sistema
mundo global serviu de alicerce para a formação social e muitas outras
conquistas mundo afora.
Foi
nesse contexto que a sociedade colonial brasileira se formou. Com a existência
de mercados consumidores para o açúcar e a necessidade de grandes áreas para
plantio, iniciou-se o processo de colonização do país, por meio do monocultivo
açucareiro, dessa forma, com os engenhos de açúcar que formavam a empresa
açucareira garantia-se a valorização econômica das terras “descobertas”, o povoamento
da colônia brasileira e a posse do território.
Tudo
culminava no mesmo objetivo, a ascensão e o enriquecimento das metrópoles. “As
formas coloniais de trabalho deviam atender às necessidades da logica mercantil
da colonização” (CARDOSO, 1990) dessa forma estiveram envolvidos nestas formas
coloniais de trabalho brancos, negros, índios e mestiços no qual os três
últimos estavam sob o domínio e tinham sua mão de obra explorada pelo primeiro.
Foi neste contexto que se deu o estabelecimento das grandes linhas do trabalho
na colônia. Segundo Cardoso (1990), os fatores que explicam essa configuração
básica estão distribuídos em três grupos: as forças de trabalho, os impactos do
sistema colonial mercantilista e as relações de produção. Sendo que as forças
produtivas se explicam por meio de três fatores principais: a demografia, os
recursos naturais e as técnicas de produção. (CARDOSO, 1990) A base demográfica
da mão obra brasileira foi constituída pelos autóctones, pelos negros africanos
introduzidos através do trafico negreiro e os mestiços classificados assim como
os anteriores pela sua cor. Quijano, (2005)
A formação de relações
sociais fundadas nessa ideia produziu na América identidades sociais
historicamente novas: índios, negros e mestiços, e redefiniu
outras. Assim, termos como espanhol e português, e mais tarde europeu,
que até então indicavam apenas procedência geográfica ou país de origem, desde
então adquiriram também, em relação às novas identidades, uma conotação racial.
E na medida
em que as relações sociais que se estavam configurando eram relações de
dominação, tais identidades foram associadas às hierarquias, lugares e papéis
sociais correspondentes, com constitutivas delas, e, consequentemente, ao
padrão de dominação que se impunha. Em outras palavras, raça e identidade
racial foram estabelecidas como instrumentos de classificação social básica da
população. (QUIJANO, 2005)
Desta
forma, justificava-se a legitimidade das relações de dominação e a posição em
que cada uma das raças ocupava dentro da sociedade colonial. A abundância de
terras durante todo o período colonial brasileiro foi forte o suficiente para
que a única forma de trabalho conseguida fosse baseada na coação e no trabalho
compulsório. (CARDOSO, 1990) O que consequentemente gerou uma serie de
conflitos posteriores entre dominadores e dominados.
Em
relação ao trabalho na colônia brasileira, Cardoso (1990) cita quatro fases:
1500-1532:
período chamado pré-colonial, caracterizado por uma economia extrativa baseada
no escambo indígena; 1532-1600:
época de predomínio da escravidão indígena; 1600-1700: fase de instalação do escravismo colonial da plantation em sua forma clássica; e 1700-1822: anos da diversificação das
atividades em função da mineração, surgimento de uma rede urbana, embora sempre
sob o signo da escravidão predominante;
Essas fases são
distribuídas de forma heterogênea de acordo com as diferentes situações e
regiões de onde na maioria delas foi predominante a exploração da mão de obra
escrava africana. A princípio, na primeira fase das relações de trabalho na
colônia portuguesa houve a tentativa de escravizar os índios, chegando a alguns
momentos à obtenção do sucesso, mas os índios eram considerados incompatíveis
para o trabalho intensivo, regular e compulsório, pois estavam habituados a
fazer apenas o necessário para sua subsistência, por meio da agricultura. O
setor agrícola esteve baseado no sistema indígena de coivara ou queimado
(CARDOSO, 1990) que serviu de base para o processo de colonização. Além disso,
os missionários, de certa forma, garantiu o impedimento da escravidão indígenas
em tempos e lugares diferentes. Segundo Ciro Flamarion Cardoso (1990, p.101):
Em
áreas recuadas de população indígena parcialmente nômade – afeita a uma
agricultura itinerante associada à caça e à coleta –, as missões religiosas
constituíram um esforço de gerar um campesinato indígena sedentário como base
para a colonização, através da auto-reprodução, de uma mão-de-obra em princípio
livre (embora forçada ao trabalho por disposições legais e pela coação), a que
teriam acesso os próprios religiosos, o governo e os colonos, segundo certas
regras.
Mesmo assim, foi
o mercado negro desenvolvido principalmente nas áreas agroexportadoras e de
mineração, desenvolvido com o trafico negreiro que fortaleceu a grande
hegemonia das metrópoles europeias a partir do século XV quando os portugueses
começaram a traficar africanos para a colônia americana. É preciso compreender
que a escravidão na América não se originou do trafico negreiro, “o que
aconteceu foi que, com a insuficiência crescente da disponibilidade de escravos
indígenas, uma procura já existente passou a ser atendida de outro modo, isto
é, pela importação de africanos” (CARDOSO, 1990, p. 103). Este trabalho escravo
era desenvolvido principalmente nas zonas rurais onde os negros exerciam
trabalhos braçais nas atividades produtivas desenvolvidas. Ciro Flamarion
Cardoso (1990, p. 95) observa que a historiografia brasileira, “duvidava da
presença expressiva de negros escravos em um setor complementar ou secundário
da economia colonial: o da pecuária, em que se acreditava predominassem os
indígenas, os libertos e os mestiços”.
Nas zonas que ficavam distantes, nos quais o poder
colonial estava mal representado era possível que uma ínfima porcentagem de
escravos tivessem a possibilidade de obter por meio da acumulação de algum
pecúlio ou quaisquer outros, a liberdade predominando entre eles, as mulheres,
os domésticos e outros escravos de confiança, os mulatos etc. (CARDOSO, 1990,
p. 104) De qualquer forma, era difícil a situação do escravo negro na sociedade
escravista, a única alternativa para tentar livrar-se de tal situação de
exploração era por meio das fugas, das resistências e das revoltas, que desde o
inicio, sob a exploração indígena, era inseparável da escravidão. A exploração
compulsória e a dominação destes era justificada através do discurso de que
negros e índios eram inferiores Ciro Flamarion Cardoso, confirma essa
afirmação.
Subordinados
e aviltados pela conquista, pelo regime colonial e pelas formas de trabalho
compulsório a que se viam submetidos, os índios e negros eram percebidos como
“inferiores” pelos colonizadores. Com o tempo, em um processo heterogêneo em
seus ritmos e alcances segundo as regiões, deu-se a transferência da percepção
de tal inferioridade do índio vencido e do negro escravo às etnias indígena e
africana como tais. O sistema de estratificação sócio-étnica resultante, ao
adquirir sanção legal, tornou-se importante instrumento de justificação ideológica
do trabalho forçado e de perpetuação da ordem social em vigor – em especial
barrando o acesso a índios, negros e mestiços de certas profissões, vantagens
sociais e regalias. Serviu, assim, de elemento reprodutor do sistema colonial
de poder e das relações de produção existentes. (CARDOSO, 1990, PP.101-102)
Portanto, é possível afirmar por meio da analise das
leituras dos diversos autores que a escravidão esteve presente em diferentes
tempos e locais na sociedade, condicionando e reduzindo povos de diferentes
culturas, praticas e costumes diferentes em apenas dois termos indígenas e
negros. A posse de escravos e de terras nesta época era sinônima de poder e
riqueza. Entende-se desta forma que o processo de formação histórica do Brasil,
foi baseado principalmente no tripé fundante da economia que ainda hoje
permanecem presentes: o latifúndio, a monocultura e a escravidão,
protagonizados em suma pelos respectivos sucessores dos antigos dominadores e
dominados. Estes são até hoje promotores de grandes desigualdades sociais,
politicas e econômicas que supervalorizam uns poucos em detrimento da maioria.
Percebe-se que apenas mudaram os personagens, mas permanece ainda a existência
de dominantes e dominados.
BIBLIOGRAFIA
CARDOSO, Ciro
Flamarion Santana. O trabalho na colonia. In: LINHARES, Maria Yedda (Org.). História Geral do Brasil. 9º ed. Ver e
Atual. Rio de Janeiro: Elsevier, 1990, p. 95-110
FIABANI, Adelmir.
Quilombo: economia quilombola. In:____. Mato,
palhoça e pilão: o quilombo, da escravidão ás economias remanescentes
[1532-2004] 1º edição. São Paulo: Expressão popular, 2005, p. 311-345.
NOVAIS, Fernando
Antônio. Estrutura e dinâmica do antigo
Sistema colonial (séculos XVI-XVIII). 5º Edição. São Paulo: Brasiliense,
1990. 106p.
PRADO JUNIOR,
Caio. Sentido da Colonização; Economia, In: _____. Formação do Brasil Contemporaneo: colonia. 7ª reimpr. da 23ª
edição. São Paulo: Brasiliense, 2004, p 119-129.
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